A Santa Casa de Campo Grande terá o terceiro nome no comando em 11 dias. O médico Luiz Alberto Hiroki Kanamura, superintendente de Gestão Médico-Hospitalar do hospital, assume a presidência nesta terça-feira (22). Ele entra no lugar do vice-presidente Heitor Miguel Scheibeler, que respondia pela instituição desde a prisão preventiva da presidente Alir Terra Lima, em 11 de setembro.
O material divulgado sobre a mudança diz apenas que ela ocorre após o “afastamento da antiga gestão”. Não informa quem afastou a diretoria, em que data, nem com base em qual decisão. Nenhuma nota da Santa Casa sobre a posse chegou a esta redação.
O estatuto manda o presidente sair do conselho
Quem pode comandar a Santa Casa está definido no estatuto da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande, aprovado em assembleia geral extraordinária de 28 de abril de 2025 e registrado em cartório.
O artigo 23 estabelece que os integrantes da Diretoria Corporativa são eleitos por meio de chapa entre os membros do Conselho de Administração, o colegiado de 18 conselheiros escolhido em 14 de novembro de 2025 na chapa única “Por Amor à Santa Casa”, encabeçada por Alir. O parágrafo 2º do mesmo artigo prevê que, se o substituto imediato declinar, o conselho elege outro nome entre os seus pares.
Há ainda a questão da vacância. Pelo artigo 27, cabe ao vice-presidente substituir o presidente nas faltas e impedimentos e sucedê-lo caso o cargo fique vago, o que dependeria de renúncia, destituição ou perda do mandato. Se a vacância foi declarada, a sucessão definitiva seria de Scheibeler. Se não foi, Alir continua sendo a presidente eleita, presa, e quem assume nesta terça apenas a substitui. As duas hipóteses levam a situações diferentes: em uma, a diretoria escolhida em novembro perdeu o mandato; na outra, ela segue de pé com a titular no Presídio Militar. Nenhuma foi esclarecida.
Kanamura é cirurgião cardiovascular e já foi diretor clínico da Santa Casa, segundo o material divulgado. A especialidade dele toca um dos pontos mais frágeis da instituição. Em 29 de julho, o hospital suspendeu as cirurgias eletivas, entre elas as cardíacas, as vasculares e as pediátricas, e a direção clínica informou que as equipes cirúrgicas avaliavam sair em bloco em até 30 dias se o atraso de pagamento a prestadores não fosse resolvido. O prazo venceu em 28 de agosto.
A crise é anterior à operação do Ministério Público. Em 27 de julho, a Santa Casa apontou déficit mensal acima de R$ 13 milhões. Em 6 de agosto, trabalhadores protestaram por atraso salarial. Em 27 de agosto, o contrato do hospital com o SUS passou a ser periciado. Em 3 de setembro, a Secretaria de Estado de Saúde anunciou aporte de R$ 4 milhões depois de o hospital reduzir atendimentos. Desde novembro de 2025, a instituição é ré em ação civil pública movida pelo Ministério Público contra ela, o Estado e o município, que cobra medidas para garantir a continuidade do atendimento.
Cinco dias depois da operação, em 16 de setembro, o Sindicato dos Trabalhadores na Área de Enfermagem de Mato Grosso do Sul registrou boletim de ocorrência por sobrecarga. A equipe de enfermagem, que segundo o sindicato tem déficit de cerca de 300 profissionais, passou a acumular a coleta de materiais biológicos com o trabalho assistencial depois que um laboratório terceirizado parou de fazer o serviço. A Santa Casa respondeu que a medida foi temporária, de contingência, e que contratou profissionais para as coletas a partir daquele mesmo dia.
O que o Ministério Público apura
A Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 36 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
Um dos contratos investigados previa a digitalização de prontuários por R$ 1,8 milhão ao ano durante três anos, R$ 5,4 milhões no total. A investigação aponta desvio de cerca de R$ 1,4 milhão somente no primeiro ano, o equivalente a aproximadamente 78% do que estava previsto para aquele ano.
A apuração também alcança contratos da Operadora Santa Casa Saúde com empresas do mesmo grupo econômico, registradas em um endereço que estava desocupado e que o proprietário, segundo o Ministério Público, tinha ligações com a diretoria da Santa Casa. Esses pagamentos chegaram a cerca de R$ 9,6 milhões em 2025, com prejuízo estimado em pelo menos R$ 3,5 milhões. Os R$ 3,5 milhões se referem a esse conjunto de contratos, e o Ministério Público não informou se o R$ 1,4 milhão do contrato de digitalização está somado neles. O valor total do prejuízo continua sob investigação.
O Ministério Público afirma ainda que contratos, pagamentos e prestações de contas eram sistematicamente sonegados dos órgãos de controle, entre eles o Conselho Fiscal da Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado. O artigo 33 do estatuto obriga esse conselho a se reunir todos os meses para fiscalizar atos da administração e examinar o balancete e os documentos da tesouraria.
As prisões são preventivas, decretadas no curso da investigação, e não representam condenação. Alir Terra Lima assumiu a presidência em 2023, foi a primeira mulher a ocupar o posto e estava no segundo mandato. Ela passou por audiência de custódia em 12 de setembro. O advogado Murilo Marques afirmou que ela “está indignada com a prisão por não ter cometido nenhuma ilicitude” e que a defesa pediria a revogação da preventiva.
cgp
